Crítica: Parasita – jogando luz na exploração capitalista

Parasita, um filme recente do diretor sul-coreano Bong Joon-ho, representa a brutalidade da vida sob o capitalismo, mostrando como a pobreza força as pessoas a lutarem umas contras as outras para sobreviver.

Parasita é uma excelente representação da brutalidade do capitalismo pelo diretor sul-coreano Bong Joon-Ho.  O filme assume a forma de uma comédia gloriosamente sombria, filmada com elementos de suspense e terror.  Conta a história da família Kim, que vive em um pequeno porão em um bairro pobre de Seul e luta para sobreviver, trabalhando em uma série de empregos temporários mal pagos.

A parte inicial do filme mostra a luta diária da família Kim, composta pelo pai Kim Ki-taek, mãe Chung-sook, filho Ki-woo e filha Ki-jeong, para sobreviver.  Eles assumem um trabalho no qual dobram caixas de pizza por uma ninharia e são humilhados quando o chefe tenta cortar seu salário lamentável pelo suposto trabalho de má qualidade.

Quando funcionários do governo que pulverizam pesticidas chegam para fumigar o bairro, Ki-taek pede à família que mantenha as janelas abertas.  “Extermínio gratuito!”, ele exclama enquanto são envoltos em produtos químicos nocivos.

Ponto de ruptura

No meio dessa árdua rotina diária, os Kims recebem um vislumbre de esperança.  Um amigo de escola de Ki-woo se oferece para lhe arrumar um emprego como professor da filha dos Parks, uma rica família de Seul.  O único problema é que Ki-woo nunca esteve na universidade, apesar de suas habilidades óbvias, porque a família não pode pagar.  Imperturbável, Ki-woo decide falsificar um diploma e abre caminho para o trabalho usando seus encantos.

A família Park vive em uma linda casa modernista, cheia de luz, em um dos bairros luxuosos no topo de uma colina de Seul.  O contraste com o porão escuro no qual os Kims são forçados a residir não poderia ser maior – uma representação visual gritante de duas famílias, cada uma de um lado da divisão de classe.

Vendo a riqueza abundante dos Parks, Ki-woo percebe uma oportunidade.  Ele inicia uma conspiração para conseguir emprego para toda a família, enquanto eles manobram para substituir a outra equipe doméstica dos Parks através de meios hilários e engenhosos de sabotagem.

O filme aumenta a tensão à medida que o plano dos Kims começa a se desenrolar de uma maneira cada vez mais violenta.  Torna-se aparente que o tema central do filme é o modo como a pobreza abjeta daqueles que estão no fundo da sociedade capitalista empurra as pessoas a lutar umas contra as outras para sobreviver.  Os Kims fazem coisas abomináveis, mas apenas porque o capitalismo os levou a esse ponto de ruptura e suas vidas dependem disso.

Por outro lado, os Parks podem parecer bons, mas isso é apenas porque eles podem se dar ao luxo de ser.  “Ela é rica, mas ainda assim legal”, diz Ki-taek, da Sra. Park.  “Ela é legal porque é rica”, responde sua esposa Chung-sook.  Elevados acima da luta para sobreviver por sua imensa riqueza, os Parks podem oferecer gentilezas que não estão disponíveis para os Kims.

Privação e corrupção

A imagem da Coréia do Sul que nos é apresentada no Ocidente é uma história de sucesso gigantesco para o capitalismo.  A “República da Coréia” contrasta com seu vizinho do norte para mostrar os horrores do “comunismo” e o suposto inspirador país das maravilhas de alta tecnologia no sul.  Mas, como qualquer marxista sabe, por trás do desenvolvimento desenfreado sempre reside a exploração e a privação do capitalismo – a própria privação em que os Kims se vêem atolados.

A Coréia mal havia se desenvolvido sob o jugo do imperialismo japonês.  No final da Guerra da Coréia, em 1953, o Sul permaneceu uma economia amplamente rural, com um padrão de vida muito baixo.  No período imediatamente após a guerra, o Sul era totalmente dependente dos EUA.  Ele seguia a orientação de seus mestres americanos, contando com o “livre mercado” para promover desenvolvimento.

Quando o Norte começou a industrializar-se rapidamente com base em uma economia planificada, o Sul rompeu com os conselhos dos americanos para, em vez disso,  gerar crescimento por meio do planejamento estatal.  Nesta base, a Coréia do Sul passou por uma dramática transformação econômica de um país pobre do terceiro mundo para uma nação capitalista desenvolvida.

Esse crescimento foi impulsionado pelo surgimento de conglomerados gigantes patrocinados pelo Estado, chamados chaebols, que passaram a dominar totalmente a economia.  Os chaebols eram administrados pelas famílias de elite do país, que usavam a corrupção e seus contatos estatais para acumular fortunas enormes.  Certamente, eles se certificaram de que suas riquezas fossem repassadas aos filhos.

Sistema parasitário

Com base nesse desenvolvimento, uma nova classe trabalhadora foi formada nas cidades, e uma enorme divisão de riqueza se abriu, com imensa desigualdade.  Após a crise financeira da Ásia em 1997, vários chaebols faliram e a Coréia entrou em um período de desemprego em massa.

O filme sugere que esse é o pano de fundo tanto para a riqueza dos Parks quanto para a pobreza dos Kims.  Os Kims nem sempre estiveram no limite da sobrevivência;  Chung-sook e Ki-taek falam de ter perdido empregos estáveis no passado.

Hoje, a Coréia do Sul é uma nação no limite.  Nos últimos anos, o país foi atingido por escândalos de corrupção, greves gerais e movimentos de protesto em massa que derrubaram governos.

Parasita expõe as condições horríveis em que os membros da sociedade coreana são forçados a trabalhar.  O que não mostra é o poder que a organização e a liderança têm para a classe trabalhadora, na sua luta para superar essas condições.  Em vez disso, os Kims são vistos lutando sozinhos;  e, apesar de seu talento e capacidade óbvios para um trabalho duro incrível, essa luta tem consequências trágicas.

No final das contas, é o sistema capitalista e a classe burguesa que se enriquece através da exploração que são o verdadeiro parasita.

Tradução de Taisa Leonardo.

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