Por que ler Salário, Preço e Lucro (1865), de Karl Marx?

Em 28 de setembro de 1864, em Londres, foi fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores, primeira organização dirigente da classe operária, com militantes em toda a Europa e nos Estados Unidos da América. A direção da AIT foi ferrenhamente disputada, especialmente entre os socialistas utópicos e os científicos, estes organizados a partir da militância de Karl Marx e Friedrich Engels.

Em meio a esse processo, Marx realizou um informe nos dias 20 e 27 de junho de 1865 para o Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores para a devida formação e atuação dos trabalhadores neste intenso período histórico de lutas por direitos trabalhistas, políticos e sociais, no auge da revolução industrial. Neste informe, intitulado Salário, Preço e Lucro, o revolucionário apresentou quatorze pontos para o desvelamento dos processos de produção, circulação de mercadorias, salário pago aos trabalhadores e o lucro burguês na sociedade capitalista.

Este informe, contudo, não surgiu de um preciosismo ou mero trabalho intelectual de Marx. Ele é forjado a partir da luta dos trabalhadores, pois a efervescente conjuntura europeia exigia tal compreensão por parte da direção operária, vide o momento de “verdadeira epidemia de greves e um clamor geral por aumentos de salários”, como afirma Marx no início de seu informe.

Igualmente, na atualidade, a leitura e o entendimento que deve-se realizar deste escrito apresenta-se como fundamental, pois a obra de Marx, mesmo sendo fruto de seu tempo, proporciona a compreensão da estrutura do modo de produção capitalista não apenas de um determinado período histórico, mas de seu funcionamento até a contemporaneidade.

Este informe foi também uma resposta de Marx à uma parte do conselho geral da associação. Esta ala da direção, distante da uma luta concreta pela revolução socialista, pois baseava-se em filosofias utópicas, acreditava que a luta operária pelo aumento dos salários era inútil e que até mesmo traria malefícios para a classe trabalhadora. Um dos principais defensores desta teoria foi John Weston, um seguidor das ideias de Robert Owen (1771-1858).

A defesa de Weston baseava-se no falso entendimento de que os aumentos dos salários provocariam altas nos preços das mercadorias, elevando, portanto, o custo de vida. Porém, Marx desmonta esses argumentos com a análise materialista dialética da história, demonstrando que o processo produtivo no modo de produção capitalista e o pagamento dos salários não são fixos ou constantes, mas variáveis.

Com o intuito de educar a direção da AIT e todo conjunto da classe trabalhadora, Marx explica os mecanismos que engendram a economia capitalista com exemplos que tocam diretamente a vida do proletariado, imprimindo em seu texto a complexidade devida ao modo de produção. Assim, o revolucionário alemão explica as formações de preços das mercadorias; a função do dinheiro; a inexistência de uma determinação da “lei natural” burguesa da oferta e demanda; o papel da categoria trabalho, clarificando o que é e como se dá a extração de mais-valor, além do cálculo correto sobre o salário pago aos trabalhadores, à partir do trabalho socialmente necessário.

Empiricamente, sabemos que no capitalismo somos limitados e cerceados do tempo livre, das nossas plenas habilidades e potenciais de desenvolvimento, pois somos absorvidos pelo trabalho alienante, que transforma o humano em “uma simples máquina”, como diz Marx, “fisicamente destroçada e espiritualmente animalizada, para produzir riqueza alheia”. Com este importante texto, podemos também compreender como o capital arquiteta economicamente seus lucros e consolida-se materialmente na sociedade moderna.

Por estes motivos, esmiuçados ao longo deste livro de Karl Marx, indicamos a leitura deste texto, sendo ele primordial para apreender as formas de dominação burguesa, municiando nossa atuação política no presente sob a bandeira revolucionária da “abolição do sistema de trabalho assalariado” e o fim da exploração do homem pelo homem.

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