Cultura, Conhecimento e Currículo – Contribuições da Pedagogia Histórico-Crítica

Conheci a professora Julia Malanchen em fins do ano de 2006, quando fui convidado a assessorar o trabalho de elaboração do currículo escolar do município de Cascavel, Paraná. Minha participação nesse trabalho consistiu em reuniões com a equipe pedagógica da Secretaria Municipal de Educação, coordenada pela professora Claudia Pagnoncelli, e reuniões de estudo com o professorado da rede. Os estudos e as discussões realizados nesse processo de construção coletiva do currículo municipal levaram a professora Julia Malanchen a buscar o aprofundamento da análise das divergências entre a pedagogia histórico-crítica e as concepções mais difundidas entre os teóricos do currículo no Brasil e no exterior, com destaque para o relativismo cultural e epistemológico, defendido pelo multiculturalismo e, de modo mais amplo, por todas as pedagogias do aprender a aprender.

PREFÁCIO  

Conheci a professora Julia Malanchen em fins do ano de 2006, quando fui convidado a assessorar o trabalho de elaboração do currículo escolar do município de Cascavel, Paraná. Minha participação nesse trabalho consistiu em reuniões com a equipe pedagógica da Secretaria Municipal de Educação, coordenada pela professora Claudia Pagnoncelli, e reuniões de estudo com o professorado da rede. Os estudos e as discussões realizados nesse processo de construção coletiva do currículo municipal levaram a professora Julia Malanchen a buscar o aprofundamento da análise das divergências entre a pedagogia histórico-crítica e as concepções mais difundidas entre os teóricos do currículo no Brasil e no exterior, com destaque para o relativismo cultural e epistemológico, defendido pelo multiculturalismo e, de modo mais amplo, por todas as pedagogias do aprender a aprender.

Essa busca de aprofundamento teórico vinha, portanto, marcada desde sua origem pelo engajamento político e pedagógico com a realidade da escola pública, ou seja, com a educação das crianças da classe trabalhadora. Era o momento de a autora realizar aquilo que Karel Kosík chamou, em seu livro Dialética do concreto, de détour, isto é, um esforço de distanciamento momentâneo das demandas sempre urgentes da prática para a elaboração das mediações teóricas necessárias à compreensão da própria prática. Na realidade, esse esforço já vinha sendo realizado no próprio processo de elaboração do currículo municipal, mas os inevitáveis embates político-ideológicos presentes nesse desafio colocavam limites às possibilidades de aprofundamento em determinadas questões no campo dos fundamentos da pedagogia histórico-crítica. Então a professora Julia Malanchen decidiu fazer o doutorado sob minha orientação com a proposta de produzir uma tese que se constituísse em instrumento de trabalho para todos os que assumam o desafio de adoção da pedagogia histórico-crítica como referencial para a discussão sobre o currículo da escola brasileira. Em 2014 a tese foi concluída e defendida, constituindo-se no material do qual resultou, após revisões e aperfeiçoamentos, no presente livro.

A autora analisa, no primeiro capítulo, as políticas curriculares nacionais a partir da década de 1990, nas quais se expressa, com nitidez, a hegemonia das pedagogias do aprender a aprender, especialmente no que se refere à concepção relativista e fragmentadora do que seja a cultura e o conhecimento. Isso levou a autora a se deter, no segundo capítulo, nos principais aspectos do multiculturalismo no campo dos estudos sobre currículo. Os impasses gerados pela ideologia pós-moderna, da qual o multiculturalismo é expressão, não encontram solução a não ser que se adote a perspectiva materialista, histórica e dialética do processo histórico de construção da cultura. Assim, no terceiro capítulo, a autora debruça-se sobre contribuições da teoria marxista da cultura para os debates sobre: a objetividade e a historicidade dos conhecimentos, a dialética entre o relativo e o absoluto no processo histórico de permanente apropriação da realidade pelo pensamento; a dialética entre contextualização e universalidade das produções culturais; os reflexos da luta de classes nas ciências, nas artes e na filosofia; limites e possibilidades da luta pela superação da alienação etc. A perspectiva marxista fornece os fundamentos com base nos quais a autora, no quarto capítulo, aborda algumas contribuições da pedagogia histórico-crítica a uma teoria do currículo, estando, porém, consciente do caráter exploratório e introdutório de tal reflexão.

A leitura deste livro impulsionará os leitores a agirem em duas direções complementares. A primeira é a de continuidade do esforço coletivo de elaboração teórica da teoria do currículo na perspectiva histórico-cultural. Nesse sentido, convido os leitores a avaliarem minha contribuição a essa linha de estudos, consubstanciada no livro Os conteúdos escolares e a ressurreição dos mortos, publicado pela editora Autores Associados neste ano de 2016. A outra direção na qual o livro da professora Julia Malanchen estimulará a ação dos educadores será a de engajamento na luta pela construção de currículos escolares que efetivamente avancem em direção à socialização das mais ricas e desenvolvidas conquistas da humanidade nas ciências, nas artes e na filosofia. Como mencionei, a autora enfrentou o desafio de elaborar uma tese de doutorado no campo da teoria do currículo motivada por sua participação em uma prática efetiva de construção de um currículo. Esse espírito de compromisso com a prática perpassa toda a elaboração teórica aqui apresentada. Se este livro fortalecer em seus leitores esse mesmo movimento entre a teoria e a prática, animado por um assumido compromisso político-pedagógico, terá valido a pena todo o esforço empenhado pela autora para realização de seu doutorado.

Araraquara, fevereiro de 2016

Newton Duarte

Professor da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp/Araraquara),  e  líder do Grupo de Pesquisa “Estudos Marxistas em Educação

Peso 0.460 kg
Páginas

256

Autor

Julia Malanchen

Editora

Autores Associados